O IPO da SpaceX não é sobre foguetes

Arthur Frota

A SpaceX ultrapassou US$ 2 trilhões em valor de mercado em sua estreia na Nasdaq. As ações abriram a US$ 150, chegaram a bater US$ 176 durante o dia e fecharam com alta de 19%, a US$ 161. Elon Musk se tornou o primeiro trilionário da história. O maior IPO de todos os tempos.
Como acontece sempre que uma empresa atinge números dessa magnitude, muita gente começou a discutir se o valuation faz sentido. A pergunta, porém, me parece outra.
O que o mercado está enxergando para atribuir esse valor?
Ao longo dos anos construindo a TALLOS, aprendi uma lição que mudou minha forma de analisar empresas de tecnologia. Os produtos chamam atenção. O valor normalmente está em outro lugar.
O cliente vê a interface, as funcionalidades e a experiência. O investidor tenta entender algo mais profundo: de que forma aquela empresa se torna indispensável para o funcionamento de um mercado inteiro.
Os maiores negócios da era digital foram definidos pela camada que ninguém via
Foi assim com a Microsoft. O valor nunca esteve apenas no Word ou no Excel. Estava no sistema operacional que se tornou a base sobre a qual milhões de computadores passaram a funcionar. Quem controlava o sistema operacional controlava tudo que rodava em cima dele.
Foi assim com o Google. A busca era apenas a porta de entrada para uma posição dominante na organização da informação global. O produto visível era a caixa de pesquisa. O ativo real era o índice de tudo que existia na internet.
Foi assim com a Amazon. Durante anos, muita gente acreditou estar olhando para uma varejista online, enquanto a AWS se transformava silenciosamente em uma das infraestruturas mais importantes da economia digital. Hoje, boa parte da internet roda em servidores da Amazon.
Foi assim com a NVIDIA. Ela não vende apenas chips. Ela ocupa uma posição estratégica em uma cadeia da qual boa parte da revolução da inteligência artificial depende. Sem as GPUs da NVIDIA, os modelos de linguagem que estão transformando o mercado simplesmente não existiriam na escala em que existem.
Em todos esses casos, o padrão é o mesmo: o produto que o cliente vê não é o ativo que o investidor está comprando. O ativo é a camada de infraestrutura que outros precisam para operar.


Os foguetes não são o produto. São o mecanismo.
Por isso acredito que muita gente está interpretando a SpaceX da maneira errada.
Existe uma analogia útil aqui. Em 1497, Vasco da Gama encontrou uma rota marítima ao redor do Cabo da Boa Esperança que eliminou todos os intermediários no comércio de especiarias entre Ásia e Europa. Aquela única mudança colapsou a estrutura de custo de um mercado inteiro. As empresas que controlaram a nova rota se tornaram algumas das mais valiosas da história.
A SpaceX fez algo parecido com o acesso à órbita. A NASA estimou que o ônibus espacial custava US$ 54.500 por quilograma para chegar à órbita baixa. A SpaceX reduziu esse custo para US$ 2.720. Uma redução de 20 vezes. Em 2025, a empresa lançou 85% de todos os satélites do planeta, mais do que todos os outros programas espaciais combinados.
Essa vantagem de custo criou a condição para construir a Starlink: hoje a maior rede privada de satélites do mundo, com US$ 11,4 bilhões em receita em 2025, crescimento de 50% ao ano, atendendo governos, operações militares e conectando regiões inteiras do planeta a partir da órbita. Uma rede de comunicação global independente da infraestrutura terrestre tradicional.
Os foguetes não são o produto principal. São o mecanismo que permite construir e expandir a infraestrutura. E a infraestrutura é o negócio.
O que o preço exige que você acredite
Preciso ser honesto sobre os riscos, porque eles são reais.
Para justificar os US$ 135 do IPO, análises de reverse DCF mostram que é necessário acreditar que a SpaceX vai crescer receita acima de 40% ao ano por dez anos consecutivos, partindo de uma base de US$ 24 bilhões hoje e chegando a mais de US$ 700 bilhões em 2036, com margens de fluxo de caixa comparáveis às da Meta ou Apple. Oitenta e três por cento do valor implicado no preço está no valor terminal, ou seja, no que a empresa vai ser daqui a uma década.
A empresa perdeu quase US$ 5 bilhões em 2025. Tem uma necessidade de capital estimada em US$ 235 bilhões até 2030. O IPO levanta no máximo US$ 85 bilhões. A diferença precisará vir de novas emissões, com diluição para quem compra agora.
Mas o mercado não ligou para nada disso na estreia. A Sequoia Capital, que investiu US$ 2 bilhões na SpaceX ao longo dos anos, viu esse investimento valer mais de US$ 20 bilhões ao preço do IPO. Quem apostou na infraestrutura antes de todo mundo ganhou de forma expressiva.
O padrão que o mercado repete a cada geração
Quando observamos o movimento da SpaceX, a discussão deixa de ser sobre exploração espacial. Ela passa a ser sobre dependência.
Quais empresas serão tão relevantes que outras empresas, governos e até países passarão a depender delas para operar? Essa é a pergunta que o capital está tentando responder quando atribui US$ 2 trilhões a uma empresa que ainda opera no prejuízo.
O mercado não mudou a forma de criar valor. Ele sempre premiou quem controlava posições estratégicas. O que muda a cada geração é onde essas posições surgem.
Em algum momento foram as estradas. Depois as ferrovias. Depois o cabo de fibra óptica que conectou o mundo na virada do milênio. Depois os sistemas operacionais, os buscadores, a computação em nuvem. Agora vemos surgir novas camadas ligadas à inteligência artificial, à conectividade global, à computação e ao espaço.
Esse IPO também é descrito pelo mercado como um ensaio geral para a próxima onda de aberturas de capital. A Anthropic e a OpenAI estão nos bastidores. O que acontecer com a SpaceX nas próximas semanas vai calibrar o apetite dos investidores para essas ofertas, e possivelmente sinalizar o início de um novo ciclo de mega IPOs ligados à infraestrutura da era da IA.
Quando olho para o IPO da SpaceX, não vejo apenas uma abertura de capital histórica.
Vejo um dos sinais mais claros de onde o capital acredita que estarão as próximas dependências do mundo. E independentemente do que acontecer com o preço da ação nos próximos meses, essa aposta sobre onde o valor vai ser criado nas próximas décadas é a conversa mais importante que esse evento está colocando na mesa.
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